Mr. Domingues

Sempre ouvi que escrevo demais, e-mails longos, cartas intermináveis para namoradas, nunca consegui usar Post-it, enfim, bem ou mal eu gosto de escrever. A intenção é que isso aqui sirva como uma "descarga mental" onde comento fatos, acontecimentos e pensamentos, na verdade, tudo que me der vontade. Sabe quando se vê um filme, lê um livro ou algo no jornal e ficamos com vontade de discutir com alguém sobre o assunto? É pra isso que esse espaço serve, assim eu incomodo menos quem está à minha volta e começo a incomodar anônimos internet afora que queiram ser incomodados. Mas é claro que não vou fugir muito dos meus hobbies, interesses pessoais e profissionais, como saúde, atividade física, esporte, tecnologia e música.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Meu acidente na Serra.

Eu estava em Gramado, trabalhando pesado na organização do VIII Congresso Brasileiro de Atividade Física e Saúde. A previsão era ficar em Gramado de terça a sábado e no sábado de noite, após encerrar o evento eu iria para Osório fazer um triathlon olímpico (agora chamado de Standard) no domingo de manhã.
Como eu vinha trabalhando muito para esse evento nos últimos meses, o treinamento estava em baixa, mas eu queria pelo menos fazer a prova pra ter direito à bonificação de pontos e tentar fechar o ano entre os 5. Tinha intenção de dar umas corridinhas e pedalar umas 2-3 vezes nessa semana em Gramado. E como o Felipe Fossati também estava no evento, iríamos treinar juntos. Pelo menos eu iria tentar andar com ele nos morros.
Como a função do evento ia quase sempre das 8-20h e depois tínhamos jantares com os palestrantes, achar horário para os treinos era difícil. Nosso primeiro treino foi combinado para a manhã de quinta-feira. Saímos 6 da manhã do Hotel Serra Azul em direção à Canela com intenção de pedalar por volta de 1:30h. Meio escuro ainda, nevoeiro fechado, bem perigoso, os dois cansados e com frio. O nevoeiro virou uma garoa e decidimos voltar. Mas ao chegar perto do hotel tinha muito menos nevoeiro e decidimos ir no sentido oposto, em direção à Nova Petrópolis.
Pouco movimento na estrada, e menos nevoeiro para esse lado, mas o asfalto estava molhado, típico da serra. O Felipe vinha atrás de mim e logo na saída de Gramado passamos por umas 2-3 pequenas descidas seguidas por pequenas subidas ou planos. A gente deixava a bike embalar um pouco na descida (até uns 40-45km/h) e depois subia ou pedalava de leve no plano. Até que lá pela quarta descida, a bike chegou a 45km/h e começou a ter muita curva. Mas a estrada estava vazia, eu vinha “mamando” nos freios de leve e achando que em seguida pararíamos de descer. Nessa situação se a gente trava a roda com chão molhado e em curva, é tombo certo, ainda mais com os pneus que eu uso. A cada curva eu esperava que a estrada ficasse plana ou que iniciasse uma nova subida, mas a coisa só descia cada vez mais e era curva em cima de curva. A estrada naquele estilo clássico da serra: paredão de pedra de um lado e penhasco do outro.


Apesar de seguir freando de leve com as duas rodas eu reparei que a velocidade só aumentava 45-50-55-60 e não poderia travar as rodas porque provavelmente iria escorregar e cair com grande chance de levar o Felipe junto pro chão (eu não sabia o quão distante de mim ele estava). Quando a bike passou de 60km/h eu comecei a perder a estabilidade e sabia que não poderia mais frear a roda da frente. Bom, se freando as duas eu não parava, só na de trás é que eu não ia desacelerar. Lembrando que pela umidade do dia, os freios estavam meia boca.
Fazendo uma curva para a direita eu não consegui manter a bike na nossa faixa por causa da força centrífuga e passei para a contramão, indo em direção ao lado da estrada que tinha o paredão de pedra. Eu estava acima de 60km/h, instável, na contramão e em curva sobre asfalto molhado, a poucos metros de uma parede de pedra (o ciclo marcou como máxima 69,4km/h), frear não parecia ser uma atitude muito acertada.
Como a força centrífuga continuava a me jogar pra fora da curva, antes de ser arremessado pra fora do asfalto, ou pior, entrar de frente num carro que viesse contra (não dava pra ver se vinha carro ou não porque era em curva), eu decidi que teria que pular fora da estrada. Mas pular pra onde se era uma parede de pedra?
Bom, na serra, entre o asfalto e o paredão de pedra costuma ter uma valeta de cimento pra correr água. Entre essa valeta e o paredão existe um espaço onde junta gravetos, folhas secas e pedaços de rocha que se desprendem, foi pra esse espaço que pulei. É como se eu tivesse entrado numa trilha de downhill com pedras e gravetos, a 60km/h a bordo de uma speed.

No momento em que decidi pular eu sabia que ia cair feio, só não sabia o quanto eu iria me machucar. Voei sobre a valeta, encaixei a bike nessa trilha (que tem uma largura de 1 metro aproximadamente) e a bicicleta andou poucos metros antes de encontrar uma pedra bem grande. Ao bater nessa pedra com a roda da frente eu capotei e saí dando cambalhotas. Recapitulando, entre eu perceber que tinha perdido o controle da bike, mudar de faixa, pular a valeta e cair foram menos de 15 segundos. Raciocínio rápido, bicho burro, mas rápido.
O Felipe disse que foi um tombo lindo, pena ele não ter uma Go Pro no capacete, mas na hora ele achou que eu tivesse todo quebrado. Eu parei de capotar uns 6 metros à frente da bike e a pedra em que bati estava mais uns 5 metros pra trás. Assim que meu corpo parou, fiquei em pé e gritei, “tô bem” pra tranquilizá-lo (e porque eu sabia que ele queria rir).
Nessa hora nós dois ficamos sem entender o que tinha acontecido, ainda meio nervosos. Demos uns passos em direção à minha bike e de longe eu percebi que ela não tava legal, achei que tivesse quebrado o garfo. Ainda meio zonzo eu olhei pra ela e não entendi muito bem, até que percebemos o quadro quebrado. Acho que só nesse momento nós nos demos conta da força do choque.
Meu guidão (carbono) desceu 90 graus (mas não quebrou), a roda da frente (Dura-Ace C24, alumínio+carbono) ficou com 2 amassões feios (mas nenhum raio quebrado), o quadro quebrou nos 2 tubos mais grossos próximos à caixa de direção e nada mais. Eu carregava no bolso de trás da camisa um gel (ok), óculos escuros (destruídos) e uma máquina fotográfica (que saiu ilesa e fez as fotos do local que aparecem aqui). E só isso, nem os passadores da ponta do clip, manete de freio, nem o câmbio traseiro, nada mais foi atingido.
Depois de checar meu corpo todo várias vezes e ainda sem entender como eu estava ileso, o Felipe foi até o hotel buscar o carro e eu fiquei na beira da estrada ainda meio sem acreditar. Fiz a reconstituição do acidente pra entender, refiz caminhando o trajeto por onde eu capotei, vi o tamanho da pedra em que bati e percebi que tinha outras pedras por ali, mas inexplicavelmente eu consegui rolar somente em folha seca. Tipo coisa de duble, como se tivesse um colchão de folhas pra eu cair.

Ao chegar ao hotel fizemos essa foto, na recepção um cara me pergunta se o ciclista da bicicleta estava vivo e não entende muito bem que eu era o ciclista e que acidente havia ocorrido há meia hora. O Pedrinho Hallal tava no saguão e me dá uma mijada dupla (uma como amigo e outra como presidente do evento) porque eu poderia ter morrido, e mesmo que tivesse apenas me machucado, eu tinha um papel central no evento, qualquer ausência minha prejudicaria o congresso além de abalar o clima do evento saber que um dos organizadores está hospitalizado, morreu ou sei lá. Nós tínhamos jantado todos juntos numa casa de fondue e ele me disse - “bebesse demais ontem”, mas umas taças de vinho com o bucho cheio de queijo não alteraram em nada, ninguém “dorme na direção” andando de bike e com frio às 6 da manhã, e nem meus reflexos estariam alterados no outro dia de manhã.
Não foi uma questão de reflexo, meu principal erro foi: por não conhecer a estrada, eu pensei que a descida era igual às que tínhamos feito antes e acabaria em seguida e por isso deixei a bicicleta acelerar mais do que deveria, mas ao perceber isso eu já estava num ponto em que frear não era mais uma opção.

Aí a gente começa a pensar nos “e se”. E é isso que assusta e me tirou o sono naquela noite.
E se viesse um carro?
E se eu batesse com o rosto no paredão de pedra?
E se eu batesse com a coluna ou a cabeça numa pedra?
A resposta para algumas dessas perguntas teria como resultado desde pequenas fraturas, dentes quebrados até morte, passando por ficar paralítico, tetraplégico, etc.
Um palestrante americano do evento era cadeirante e chegou a Gramado no mesmo dia do meu acidente. Ao contar o acidente para outros gringos eles me perguntaram: sabes por que o Ross Brownson está numa cadeira de rodas? Acidente de bicicleta, ele era ciclista.

Por que o Felipe que vinha junto não caiu também?
Provavelmente por ter mais experiência em andar em serra do que eu.
Talvez se eu estivesse atrás dele eu teria freado junto com ele e ambos desceríamos mais devagar, não sei. Ele vinha atrás e achou realmente que eu estava mais rápido do que deveria. Ele tinha razão, mas quando eu percebi isso era tarde.
O acidente poderia ter sido evitado com certeza se eu tivesse começado a frear muito antes e com mais força, mas a imprudência não foi deixar de frear porque eu vinha freando o tempo todo, o erro foi não ter freado com mais intensidade enquanto eu ainda tinha algum controle da bike, antes de entrar nas curvas fechadas e da bike passar de 50km/h. Depois dos 60km/h, em curva e asfalto molhado, não adianta muito ser prudente nem ter experiência, não tem muito o que se possa fazer. O segredo está em não deixar isso acontecer.
O único culpado pelo acidente fui eu mesmo, é óbvio. Minha única coisa boa foi ter um excelente controle da bike pra saber pular a valeta, cair na trilha e rolar muito bem, mas essa minha “experiência” dos tempos de bicicross seria inútil se não estivesse aliada à sorte que eu tive por não bater nas pedras.

Como hoje em dia tudo corre rápido. Assim que deu eu avisei em casa que estava tudo bem. Mas ao chegar ao evento os alunos já sabiam do ocorrido e minha mãe já tinha visto o post do Felipe dizendo que “hoje quase perdemos o Marlos”, seguido do comentário do Fabrício, pedindo fotos.

Ironicamente, esse foi o meu acidente mais sério em termos de velocidade e possíveis consequências e foi o que menos me machuquei. Esse micro arranhão foi a única lembrança.

Tive dores musculares fortes no dia seguinte ao acordar e tomei um analgésico. As dores vêm diminuindo diariamente. Nadei 3 dias depois do acidente e as costas estão doloridas. Caso a dor não passe nos próximos 2-3 dias vamos pros exames de imagem. A maior chance seria quebrar costelas, mas eu já quebrei e sei como é a dor. Além disso, por ser um evento da área da saúde no mesmo dia falei com 3 fisioterapeutas pra ver o que achavam, e aparentemente eu não tinha nada a ser investigado mesmo.

Cheguei em casa no sábado de noite e somente na segunda eu tirei a bike do carro. Estou triste por ela, quem me conhece sabe o quanto eu era louco pela minha Pink Giant. Ainda não sei se ela tem conserto e se seria seguro consertar. Daqui onde estou eu consigo olhar pra ela, pendurada, apenas com os cabos mantendo os 2 pedaços próximos. Lembra um pouco aqueles carros completamente destruídos que a polícia coloca em exposição na beira da estrada pra chamar atenção para o perigo dos acidentes.

O que farei com a bike agora?
Vou mandar fotos para quem trabalha com carbono e conversar com quem entende do assunto. Se existir uma maneira segura de consertar o quadro, vou consertá-lo. Do contrário vou guardá-lo como lembrança. É como se fosse um bicho de estimação adorado que morreu depois de 4 anos de convívio, mas diferente de um bicho eu nunca achei que ela fosse “morrer”. Se não tiver conserto vai ser como guardar o bicho empalhado.

Dei uma olhada em um site especializado em acidentes com bikes de fibra de carbono. Muitas fotos de várias peças quebradas e reparei que todas as histórias de quadro quebrado levaram os ciclistas para o hospital. Eu fui do acidente pro hotel, tomei um banho, café da manhã e trabalhei no congresso das 8-20h, com direito a passeio noturno por Gramado para encontrar os alunos e participantes do evento.

Esse acidente (10/11/11) foi quase 10 anos após minha queda em PoA (28/10/01), no triathlon do Grêmio Náutico Gaúcho, quando quebrei escápula, clavícula e 2 costelas. Se tivesse sido no dia seguinte (11/11/11) com certeza teria alguma explicação numerológica para eu sair ileso.

Falando sério, o que aprendi:
- sem conhecer o terreno, não deixe a bike acelerar acima de 40km/h em descidas.
- se existirem outros agravantes, como umidade ou chão molhado, não deixe passar de 30km/h.
- pneus super slick com asfalto molhado em descida não são uma boa combinação.
- se for andar na Serra, mande o Felipe descer na frente (e leve uma filmadora Go Pro no capacete pra filmar).


Topografia do acidente (minuto 24). Reparem na inclinação da descida.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

22 mil km em 2900 palavras.


O Pedrinho (meu colega de faculdade, mestrado, doutorado e agora como professores) me convidou para ir com ele a um evento no México. Ele foi presidente do evento que discutiu Medidas de Atividade Física nas Américas. Era bate-volta, mas durante férias da faculdade e com tudo pago pelo NIH (tipo um Ministério da Saúde americano).
O destino da viagem era o Lago Chapala, 50km ao sul de Guadalajara. Nunca entendi muito bem porque escolhem esses lugares meio paradisíacos para eventos científicos.
Pra chegar lá a gente vai a PoA (de carro), São Paulo-Cidade do México-Guadalajara (3 voos) e pega um ônibus para o Lago onde seria o evento, ida e volta um total de 10 trechos, ou seja, muita coisa pode dar errado.
Na véspera da viagem eu descobri por acaso que um dos trechos de voo dentro do México havia sido alterado, já era um mau sinal. As instruções ao chegar a Guadalajara eram: "procurar pelo Juan que vai estar em frente ao restaurante Wings". Podia ser pior, poderiam me mandar procurar o Miguelito.
Fomos pra PoA de carona com um amigo do Pedrinho que pegou o mesmo voo para SP e estava indo para Boston. Na ida, nenhum problema com aeroportos, horários e embarques, apenas no check-in em PoA a fiscal encrencou com nossos desodorantes (até 100ml pode carregar, eu estava com uma embalagem de 105 ml, e argumentei que não era novo, e portanto não passava de 100ml).
Na viagem SP-Cidade do México viajamos junto com uma excursão duns 40 adolescentes, que pra comemorar o fim do ensino médio, foram passar uma semana em Cancún (sim, existe uma vida bem melhor, só que é muito cara). Um dos estudantes foi ao meu lado no avião e me contou os planos para a semana em Cancún. Deu vontade de ter uns 20 anos e ir com eles. Nem imagino o quão caro seja esse colégio da gurizada pra turma fazer esse tipo de programa. Praticamente não dormi na viagem SP-Mexico City (9h30).
Ao chegar à Cidade do México nos juntamos à Olga Sarmiento (pesquisadora de Bogotá) e outros colombianos. Ficamos esperando pelo transporte terrestre de Guadalajara ao hotel (que fica no Estado de Jalisco, Pueblo de Ajijic). Primeira refeição no México (aeroporto) e já acho estranho o cardápio - primeiro item que aparece: Tequila, 8 marcas. O pessoal que atende em restaurantes no México tem um ritmo meio nordestino de ser, sem pressa. Conversando com a Olga (que deve ter uns 30 anos) fiquei impressionado com o conhecimento dela sobre ciclismo. Fiquei até chateado de conversar com uma mulher que sabe mais do Tour de France do que eu e conhece o cara que tava com a camisa branca no Tour.

Chegamos ao hotel perto do meio-dia. O hotel fica numa faixa de terra entre uma floresta e o Lago Chapala, que é o maior do México (é mais ou menos um retângulo de água com 80km de comprimento e 20km de largura). O lugar é muito bonito. É um hotelzinho pra lua de mel, restaurantes ao ar livre, 3 piscinas, decoração rústica (mas com Wi-fi em todo hotel). E pior, a diária custa a mesma coisa que um Ibis do centro de PoA que eu costumo ficar. O México é muito barato pra nós, pros americanos então nem se fala. Próximo do hotel tem muitas casas de americanos. Uma americana me disse que as propagandas de corretores imobiliários falam: “conforto americano com preços mexicanos”.
Almoço no hotel e depois fomos pras piscinas. Conhecemos uma família de mexicanas (vó, filha, netas e bisneta). Gente divertida, a mãe das gurias queria nos “empurrá-las” a todo custo e insistia para que a gente começasse a beber, afinal já tinha passado das 4 da tarde e não tínhamos bebido nenhuma tequila, o que pra ela era muito estranho.
Fomos a um Wal-Mart gigante pra tentar achar tênis pro Pedrinho, ele conseguiu um tênis mexicano por 25 reais, coisa de primeira, acho até que o solado era de plástico. Fui comer um lanche de tarde e confundi o tamanho de nachos com tacos, acabei pedindo coisa demais, mas encarei a janta numa boa 2h30 depois. Tomamos um torrão ao sol, fiquei com o lombo coçando. À tardinha se formou uma tempestade de verão sobre o lago e choveu muito durante a noite, mas de resto da viagem, só sol. Apesar da previsão para essa região ser fixa - “possibilidade de tempestades”. Pôr do sol 20:45 mais ou menos.
No dia seguinte, café da manhã estranho, a primeira coisa que eu vejo é um pote enorme com cebola crua picada e carne de carneiro com molho. Comi cereal com um iogurte delicioso com pedaços enormes de várias frutas vermelhas, batata suíça e um pãozinho parecido com pita com presunto e queijo picados (picados porque eram pra rechear tortillas, eles não tem frios fatiados no café da manhã, mas em compensação tem uma sopa com espaguete, couve-flor, ervilha, cenoura...). E a única coisa que aparece em todas as refeições é a tortilla (uma massa de panqueca com gosto de Doritos).
Início do evento, me colocaram junto do Bill Kohl, Barbara Ainsworth e Elva Arredondo (como eu fui com o presidente do evento, me colocaram na zona do pessoal importante). O formato é tipo plenária, uma meia-lua com as pessoas mais importantes e um grupo ao fundo. O evento é basicamente em espanhol, com meia dúzia falando inglês. Umas 70 pessoas, de 18 países das 3 Américas. Não era um evento para estudantes, apenas pesquisadores, ou investigadores como eles falam em espanhol.
A única maneira de saber todas as coisas estranhas que comi na viagem seria tirando fotos e comendo com um caderno ao lado para ir anotando tudo. Vi algumas coisas bem interessantes como uma panela enorme só com fuço, pata e língua de porco. Peguei umas batatas doré com molho vermelho pensando ser molho de tomate, tolinho. No México tudo que é vermelho e não é melancia, pode ter certeza que arde pra burro, mesmo que eles digam que "no pica". Tirando água, tudo o Pedrinho perguntava se não picava, como se fizesse alguma diferença, o conceito de pimenta é outro, nada pica pra eles. As sobremesas são quase normais, mas comi um bolo chamado de 3 Leches que é maravilhoso e tem gosto de sorvete de creme. Bolo de kiwi também é muito bom e claro que tem umas coisas que comi, gostei e não faço ideia do que sejam. Em todas as refeições eu provei todos os doces, e nos salgados fugi de partes estranhas de animais. O peixe que era bem diferente. Devo ter ingerido umas 10mil calorias/dia tranquilo. Como eu sempre provava todos os doces, era comum alguma mulher me perguntar - Ok Marlos, se tivesses que comer apenas um, qual seria? O sorvete do hotel era delicioso, sorvete de amora (com pedaços) e sorvete de café.... detalhe, nenhuma infecção intestinal. Antes de ir mandaram a gente não aceitar nem gelo no México porque era perigoso. Não fizemos nenhum tipo de restrição e não pegamos nada. Acho que a pimenta mata tudo que é bichinho.
No México tudo é muito colorido, da comida às casas e inclusive cemitérios. Saí para uma caminhada/corrida à tardinha e cheguei numa rua sem saída que acabava num cemitério que estava fechado. Como eu não queria dar meia volta, resolvi pular o muro do cemitério. Assim que pulei me dei conta - e se eu caio mal e quebro um pé aqui? Domingo, quase anoitecendo, num cemitério fechado, longe do hotel, brasileiro.. bom, mas não quebrei nada. Coisa que adolescente faz, sem pensar. Na região de Guadalajara eles adoram a morte, as meninas quando completam 15 anos fazem um book em cemitérios e no aeroporto as lojas de souvenir têm muita coisa relacionada à morte.

No evento conheci gente interessante, além de alguns “importantes” (quase nunca os importantes são os mais interessantes). Durante uma mesa-redonda sentei ao lado do Simon Marshall porque só eu e ele falaríamos inglês, pra facilitar o microfone que mandava som para as intérpretes. Gente finíssima o Simon, professor da San Diego University e um dos caras que mais entende de acelerometria no mundo (ok, falei grego agora).
Até que o meu note entrou em descanso de tela, ele viu um ciclista na tela e perguntou se eu pedalava. Eu falei todo orgulhoso - “I’m a triatlhete”. Como ele vive na Califórnia, imaginei que devesse conhecer o esporte (San Diego está pra o triathlon assim como San Francisco está para os gays). Bom, aí o cara falou, com um sotaque britânico: “eu quase fui pras Olimpíadas representando a Inglaterra no ciclismo, faltou pouco, mas a minha esposa faz triathlon, abre um Google aí e digita Lesley Patterson”. Bueno, a mulher do cara é da equipe K-Swiss/Trek, é treinadora de triathlon e é uma das 10 melhores do mundo na modalidade de triathlon Xterra. Em seguida ele me pergunta se eu tenho Facebook e fala que quando eu passar por San Diego devo fazer um training camp com a mulher dele e combinar umas pedaladas. Ok Simon. Não vou esquecer do convite.
No mesmo dia um Mexicano (Felipe Belausteguigoitia, esse é o nome dele mesmo, só sei porque ele me deu um cartão) veio perguntar umas coisas sobre meu trabalho de doutorado e quando eu disse que era de Rio Grande ele me diz que já passou pela cidade, de bicicleta. O maluco viajou de bike da Terra do Fogo até a Cidade do México, passou um ano pedalando. Bom, a história toda daria outro post, mas perguntei se ele pensou em desistir. Resposta: “sim, no segundo dia meus joelhos não se mexiam mais, mas descansei por 2 dias numa barraca cercado de neve e fui em frente. Na verdade eu iniciei a pedalada longe de casa para não desistir no início e dar meia volta. Tinha dia em que eu conseguia pedalar 20km, em outros andava 100.” E o cara se lembra até hoje da estrada do Chuy.
Bom, muitas fotos, muitas conversas (até falei bastante espanhol, mas só em conversa informal, coisa séria tem que ser em inglês porque meu espanhol se resume a umas 248 palavras e muitas são inúteis, como manubrio), mas tínhamos que voltar. Foram apenas 3 dias em solo mexicano.
Após o final do evento, lá pelas 5 da tarde, pegamos uma Van para o aeroporto de Guadalajara, fomos juntos com as intérpretes (uma austríaca e uma americana). Guadalajara é a segunda cidade do México, tem um belo aeroporto, mas o povo é exatamente aquela coisa caricata que a gente imagina, olhar a zona de embarque pra Tijuana nos dá a impressão de se estar numa rodoviária de interior, nem mala as pessoas usam, só sacos plásticos coloridos. Todos os homens com bigode e chapéu, pessoas com aquela cor que eu fico no verão, cada mulher devidamente acompanhada de seus 6 filhos, etc.
Ao chegar ao aeroporto tivemos a notícia de que a Aeroméxico havia anunciado um atraso de 14h no nosso voo Mexico City/SP. Nós voaríamos em seguida de Guadalajara pra Mexico City, e eles iriam nos pagar hotel para ficarmos aquela noite ainda no México. Eu tava até gostando da ideia, na real quase pedi pro cara passar minha passagem pruns 5 dias mais tarde, mas poderia dar galho com o reembolso depois. Mas o Pedrinho não aceitou (tava louco de saudade do filho) e inventou uma palestra de abertura que ele teria que fazer e tinha que ir pro Brasil rápido, nem que nos mandassem via outro aeroporto, tipo Buenos Aires.
O espanhol do Pedrinho é “escasso”, ele explicando isso pros funcionários em portunhol misturado com inglês foi impagável. 40 minutos de conversa no balcão da Aeromexico e nos mandaram pra Santiago, Chile. Eu percebi o ziguezague que faríamos, mas na hora o Pedrinho teimava que Santiago “era caminho” até SP. Os 3 voos de volta pra casa se transformariam em 4.
Entregamos nossas malas em Guadalajara com aquela sensação de que não as veríamos tão cedo. A cada 10 minutos o Pedrinho me olhava e dizia: “Marlos, tamo fudido”. Diversos atrasos nos voos, mas nenhum suficiente para nos fazer perder conexões (as malas viajaram direitinho também). Jantamos no aeroporto da Cidade do México, comi um burrito, mas não fiquei satisfeito e fui pegar umas bobagens (em viagem eu gosto de comer bobagens calóricas que façam pouco volume, tipo chocolate. Se alguma mulher ler isso peço que não se ofenda por eu ter chamado chocolate de bobagem). Aí queria algo salgado e peguei batata frita sabor Jalapeño, porque era a mais diferente que tinha. Eu já tinha visto essa palavra, mas não me lembrava o que era. Na primeira batata me lembrei o que era Jalapeño, um tipo de pimenta, óbvio. Mas tudo bem, o calorão passou em menos de 1h e a ardência no céu da boca durou apenas 3h. Incrível que deixar Snickers derretendo na boca e escovar os dentes não tem qualquer efeito, parece que a ardência vem de dentro e vai até os olhos. Mas comi até o último farelo. Sempre no princípio de “provar coisas novas e ir até o fim, mesmo que com lágrimas nos olhos”.
Nesse aeroporto aconteceu algo nunca visto antes, o detector de metais disparou quando o Pedrinho passou e nada foi feito. Tem uma baita diferença entre sair de casa de manhã cedo, limpinho e cheiroso pra encarar uma viagem longa e iniciar uma viagem no fim do dia, já devidamente cansado, suado, etc. Por que os aeroportos não criam banheiros com banho, mesmo que fosse pago? Estão perdendo de ganhar dinheiro.
O voo pra Santiago foi tranquilo, viajei entre o Pedrinho e uma uruguaia. Infelizmente só ficamos sabendo que ela era uruguaia e entendia português depois de termos falado algumas bobagens em voz alta. Até que eu puxei assunto com ela em espanhol ou inglês e ela me respondeu - pode falar português que eu entendo. Como o voo era entre o México e o Chile, imaginamos que ninguém falasse português na nossa volta. Nos enganamos.
Quando comentei com um comissário de bordo da Aeromexico sobre o nosso desvio de rota ele comentou rindo - “quem mandou voar pela Aeromexico”. Perto de aterrissar em Santiago, o piloto informa - “temperatura em Santiago: 1 grau”. Na véspera teve uma baita nevasca em Santiago. Como eu sou gaúcho, pensei - vou até botar um moletonzinho (que era só o que eu tinha à mão, já que as malas só veríamos em SP). O aeroporto de Santiago é muito bonito e fica encravado no meio da cordilheira. Fiquei com vontade de conhecer o Chile, o máximo que consegui foi fazer umas fotos dos Andes, de dentro do aeroporto.
A essa altura a minha vontade era de queimar minha roupa, meu último banho foi domingo de noite e o próximo estava previsto para terça de noite. Considerando o calor mexicano, correrias carregando malas, etc. encharquei a roupa com suor várias vezes. Nessa hora eu estava com o relógio de pulso no horário Chileno, celular no horário mexicano e notebook no horário brasileiro. Como o relógio biológico estava completamente desregulado, a gente comia coisas estranhas em horários estranhos, por impulso. O diálogo era sempre o mesmo entre nós: “tu tá com fome? Não sei. Vamos comer? Claro”. Entrei numa loja de chocolate, peguei uma barra linda (70% cacau) e comecei a comer indo ao caixa pagar, 16 reais. (mas em termos de preço o mais ridículo foi no Brasil mesmo. Peguei um potinho com chicletes Mentos e fui pro caixa e a guria me avisou - moço, é 11 reais, vai levar mesmo?)
A decolagem em Santiago é muito bonita, pena eu não ter ficado numa janela. Viajei ao lado de um casal judeu daqueles típicos, barba branca de meio metro, chapéu, trancinhas do lado das orelhas, comida especial pra eles a bordo e uma falta de educação que me impressionou. Eles vestindo apenas preto e branco e eu todo de preto, parecíamos uma família. Esse voo foi pela LAN, muito bom o serviço de bordo, vinho Chileno, alfajor Havana e as aeromoças passam mais tempo vendendo produtos de free shop do que servindo. Apesar de todos os aeroportos possuírem Free Shops, o pessoal compra muito perfume e relógio a bordo.
Chegamos a SP na hora programada e agora só faltava um voo até PoA. Percebi que o cérebro tava cansado quando, em Guarulhos, eu quase perguntei em espanhol se a mulher aceitava dólares americanos. O Pedrinho pegou ônibus 22h pra Pelotas, mas eu resolvi ficar em PoA pra dormir já que não tinha dormido mais do que 3 horas em todos os voos.
Em resumo, as viagens foram assim:
Ida: RG, PoA, SP, Cidade do México, Guadalajara, Lago Chapala (Ajijic/Jalisco) - 9,7 mil km
Volta: Lago Chapala, Guadalajara, Cidade do México, Santiago, SP, PoA, RG - 12 mil km

Como dizem que a terra tem 40 mil km de circunferência, dá pra dizer que demos meia volta na terra em 5 dias. Só me arrependi de não ter entrado em contato com o órgão que pagou as passagens para ficar mais no México, acho que não teria problema. É que desde o início eu não vi a viagem como turismo e sim trabalho, além de não querer gastar muito, mas daria pra ter ficado mais uma semana por lá entre Guadalajara e a Cidade do México, até porque é barato pra gente ficar lá, é um pouco caro pra ir, mas hospedagem e comida são baratos. E apesar de ouvir muito antes de ir, não, eu não trouxe um sombrero.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mr. Big – Bar Opinião – Porto Alegre



Início dos anos 90. MTV entrando no Brasil (nessa época a MTV tocava música, inclusive rock) e surge um clip em preto e branco. Um cara com rosto e voz de mulher, cantando uma baladinha chamada "To be with you" que rapidamente infectou todas as rádios do país. A baladinha era igual a uma centena por aí. O que chamava a atenção era a banda que tinha o guitarrista Paul Gilbert (ex-guitarrista do Racer-X, considerado um dos 5 melhores guitarristas do mundo) e o baixista Billy Sheehan, que foi considerado 5 vezes como melhor baixista pela Guitar Player e que já tinha tocado com Steve Vai ao lado de David Lee Roth (ex-Van Halen).


Antes do disco da baladinha (Lean Into it) eles já tinham lançado um primeiro disco (Mr. Big), mas sem repercussão, muito menos no Brasil (lembrar que isso foi na pré-história, e antes da mp3 se não faziam sucesso os discos não eram importados e as rádios não tocavam).

Mas não era possível que aqueles músicos fossem formar uma banda pra tocar baladas acústicas, e realmente, a baladinha serviu apenas pra chamar a atenção da mídia pra banda, já que o que eles faziam era muito mais do que isso. Mas eles ainda eram de uma época em que as bandas tinham que ter pelo menos uma balada por disco.

O Mr. Big mostrou em seguida que era realmente uma banda de rock com grandes músicos e que tinha um vocalista com uma voz singular. Me lembro que ao falar da banda pra quem não conhecia (ainda mais entre músicos) a primeira reação era torcer o nariz, até ouvir o "resto do disco" e mudar de ideia. Como tem uma frase no UTube num dos vídeos da banda: “desafio qualquer guitarrista a tentar tocar pelo menos a introdução dessa música”.

Em 1993 eles lançam outra balada que fez sucesso, regravação da Wild World do Cat Stevens no mesmo disco que tem a melhor música da banda (que pra minha tristeza não estava no setlist de Porto Alegre) – The whole world is gonna know.

Entre 1989 e 2001 eles lançaram seis discos com inéditas. Após o lançamento em 2001 do disco Actual Size eles sumiram do mapa. Foi cada um pro seu lado, um novo guitarrista (Richie Kotzen) fez alguns shows com a banda, até que em 2009 eles decidem voltar à formação original e lançam o disco What if..., que tem como música de trabalho a Undertow.

Quando ouvi falar da vinda deles a Porto Alegre. Achei que fosse um resto da banda, mas pra minha surpresa era a banda original e eu veria Paul Gilbert e Billy Sheehan no Opinião em Porto Alegre, meio estranho, mas tava lá anunciado.

O Opinião foi pequeno, os organizadores não esperavam tanta procura e lotou mesmo, mas consegui um lugar direito pra ver o show, até porque lá nem tem como ficar muito longe do palco. O show iniciou exatamente na hora marcada e durou 2h15’. Abriram com Daddy, Brother, Lover & Little boy, música em que o guitarrista usa uma furadeira pra tocar guitarra (até hoje não sei se foi ele ou o Eddie Van Halen quem inventou a moda). O setlist teve músicas de todas as épocas mesmo, largando uma ou outra coisa nova de vez em quando. O que chama a atenção é a naturalidade dos músicos em tocar daquele jeito, eu pelo menos nunca tinha visto um guitarrista como aquele ao vivo e muito menos um baixista. Tem hora em que se tem a impressão de 2 guitarras no palco, mas é a maneira com que o baixo é tocado.

O show teve 2 bis, sendo que num deles os músicos fazem várias trocas de instrumentos. Eles tocam Smoke on the Water do Deep Purple e no início da música a formação é: guitarrista na bateria, baterista no baixo, baixista cantando e vocalista na guitarra. No meio da música nova troca de instrumentos e baixista vai pra guitarra (fazer o solo), baterista canta e o vocalista assume o baixo. Eles vêm fazendo essa brincadeira desde 2009, como aparece aqui no show do Budokan.

Uma prova de que eles são excelentes ao vivo é que até hoje a banda lançou mais discos ao vivo do que e estúdio. Como em todo show de rock, público super calmo e com certeza com muito músico no meio. Ainda é grande o contingente de cabeludos com roupas de couro em Porto Alegre, e nessas ocasiões eles aparecem com força total. Em resumo, excelente show, mesmo sem tocar algumas que eu gostaria de ouvir.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

De pai pra filho

Recentemente uma amiga minha, bem jovem teve um diagnóstico de câncer. Ela foi pega de surpresa, teve um diagnóstico inicial relativamente demorado e praticamente quando descobriram a doença seu tratamento iniciou, sem muito tempo para ser melodramática nem ter choradeira, como ela mesma me disse - “pelo menos agora eu sei o que tenho. Vamos fazer o que tem que ser feito, depois a gente chora.”
Hoje tudo indica que ela conseguiu se livrar da doença (após uma série de cirurgias e muitas semanas hospitalizada). Pela rapidez da coisa toda, ela não teve tempo para “despedidas”, mas felizmente elas não foram necessárias. Se as coisas seguirem no rumo que estão, com certeza ela terá tempo de ver seus dois filhos crescerem, e digamos que ela morrerá “na hora certa”.
Em alguns casos dessa doença, as pessoas têm tempo para despedidas, o que torna o processo de certa forma mais doloroso pela certeza de que alguém vai embora, mas pode criar situações bastante curiosas, como essa notícia que li uns tempos atrás:

Kate Greene havia sido diagnosticada com câncer de mama e deixou uma lista com cerca de 100 coisas que o pai deve fazer com os filhos, para garantir que eles tenham a experiência que ela sempre sonhou para a família e serão criados como ela planejava.
Entre as recomendações para os filhos de 4 e 6 anos, estavam coisas específicas, como visitar a praia onde ela passava férias quando criança, ou assistir um jogo internacional de rúgbi. Kate ainda pediu ao marido, que levasse os filhos à Suíça, para mostrar o local onde ele a pediu em casamento.
A mãe ainda decretou que a família deveria ter uma mesa de jantar, para que todos estejam juntos durante as refeições em sua casa, e que o marido deveria ajudar as crianças a plantar um girassol, encontrar um trevo de quatro folhas e aprender a tocar um instrumento musical.
Ela ainda descreveu os valores que ela queria ensinar aos meninos, como ser pontuais, fazer as pazes logo quando brigassem com alguém e tratar as namoradas com respeito. A lista ainda inclui coisas que a mãe não queria que os filhos fizessem, como andar de moto, fumar ou entrar para o exército.
O pai conta que planeja realizar todos os desejos da lista, já que, de alguma forma, as orientações significam ainda uma ligação emocional com Kate.
O desejo mais difícil de ser cumprido será encontrar uma outra companheira, para que os filhos cresçam com uma influência feminina. "Já encontrei minha alma gêmea, e voltar ao mercado é uma coisa muito difícil".


Todos os pais e mães sabem que, se a natureza for no rumo certo, eles morrerão antes de seus filhos. Todos planejam coisas para seus filhos a partir do momento em que se descobre a gravidez. Uma lista como essa na verdade deveria ser obrigatória.
E isso me lembra o meu pai que, desde que eu tinha uns 4 anos costumava iniciar as frases educativas assim: “aprende comigo enquanto estou vivo, porque tu sabes que eu vou morrer antes de ti”. Eu no início perguntava por que ele falava assim, e ele sempre dizia - porque é o certo, pais morrem antes dos filhos, se tu morresse antes de mim é que ia estar errado. Isso não é uma coisa muito legal de se dizer para uma criança, mas pelo menos era verdade E às vezes eu perguntava - mas a gente não pode morrer junto, assim eu não fico triste?
Depois dessa introdução ele dava “a aula” que poderia ir desde a explicação para o formato de determinada folha numa planta até contar um trecho da infância do Mozart, passando por algum assunto na área da aviação ou explicar o que era a aurora boreal. Ir à feira ou ao mercado público com ele era como assistir a um documentário do National Geographic. E isso para uma criança é tão estimulante quanto um caderno de caligrafia. Mas com o tempo eu comecei a perceber que tinha coisa legal no que ele me ensinava.
Quando o tempo passou um pouco mais e eu estava na pré-adolescência, ele iniciava as aulas por - “acho que eu já te expliquei porque os...” e antes que ele completasse a sentença eu retrucava meio irritado “já pai, tu já falou isso, que saco”. Ele claro ficava desapontado e com aquele sentimento - acho que já ensinei tudo que podia pra ele.
Alguns anos mais se passaram e quando ele iniciava as explicações (sobre algo que eu já ouvira centenas de vezes) eu deixava ele seguir, e às vezes até fingia que estava maravilhado com a novidade. Pronto, ele voltava a se sentir no papel de pai. E quando ele ficou velho mesmo ele me chamava para “ensinar” algo e ele mesmo já dizia - “sei que já te expliquei isso, mas ...”. E eu, agora adulto, ouvia-o com calma porque entendia perfeitamente que ele estava apenas tentando aproveitar um restinho mais da sua função de pai que é: não ir embora do mundo antes de ter ensinado tudo que pode para os seus filhos (no caso dele, 6 filhos).
Eu não tenho filhos, não sei se terei algum dia, não depende só de mim, mas tenho certeza que serei um “professor” tão chato quanto meu pai foi. E achei bem interessante a ideia de fazer uma lista de “coisas imperdíveis” para deixar à próxima geração. Mesmo sabendo que muitas coisas não receberiam a merecida importância, porque o que é importante pra mim pode não ser para outra pessoa e pela passagem do tempo mesmo. Mas pelo menos para eles verem as experiências que eu algum dia julguei importantes de se viver. Coisas como acampar na praia e assistir ao nascer do sol de dentro da água (de preferência surfando), assistir a um show da sua banda favorita com um grupo de amigos e ficar sem voz por 2 dias, definitivamente aprender algum instrumento musical que possa produzir música reconhecível (bateria não vale nesse quesito), fazer pelo menos uma viagem de bicicleta com 3-4 amigos escolhidos a dedo, plantar uma árvore e tirar fotos periodicamente ao lado dela pra ver o crescimento de ambos. Bom, tenho tempo pra escrever a minha lista.

A propósito, o sujeito vestido de Batman à direita na foto sou eu e o da esquerda era o meu "professor".

sexta-feira, 15 de abril de 2011

You too? Me too



Previsão de chuva pro show do U2, medo de ficar longe do palco, tomar um banho e não ver direito. A banda promete que o palco 360 graus (que parece uma aranha de 4 patas) permite que todos assistam tudo com suas passarelas que andam, bateria que gira, telão de LED 360 graus, etc., mas eu estou (mal) acostumado com área VIP, na cara dos músicos. Só que colado no palco do U2, além de impossível conseguir comprar, custava mil reais. Outro detalhe, com o show à parte que é a iluminação do palco, quem fica na Red Zone (vip) fica de cara com o Bono, mas perde bastante do efeito visual do palco. (ok, meio desculpa de quem não ficou colado no palco). Comprei ingressos para “arquibancada vermelha especial” do Morumbi porque foi o que deu pra conseguir. A procura por esse show foi tanta que seria apenas um show no Brasil, mas resolveram fazer 3. E o site (que aguentou numa boa a venda do show do Paul McCartney), ficou completamente congestionado, os 3 shows esgotaram. Não choveu como previsto, noite estrelada. Eu poderia ser esperto e parar o post por aqui dizendo que o show é indescritível e que nenhuma foto ou vídeo consegue mostrar o que é a coisa ao vivo, mas..... Já ao entrar no estádio (20:00) e me deparar com aquela enorme estrutura foi impactante, a impressão é de se estar no set de filmagem de uma ficção científica. Fui com a minha irmã e nos sentamos ao lado de um casal de mineiros que chegaram ao estádio às 16h (fizeram bate-volta BH-SP-BH, sem pausa pra banho/dormir). Existiam 2 tipos de banheiro no Morumbi: feminino e unisex. Devido ao grande número de mulheres e ao tempo maior que elas levam, a fila do feminino era infinita. Aí fizeram o seguinte: entrava um grupo de 20 mulheres no banheiro dos homens, depois que elas saíam, entrava um grupo de homens e iam alternando. Mas claro que a sincronia não era perfeita, ou seja, acabou que no lado dos homens o negócio virou unisex, com as gurias usando os vasos e os homens os mictórios em pé. Abertura da banda Muse. Interessante o som dos caras, mas não dá pra digerir assim na primeira ouvida. Achei uma mistura de New Order - Radiohead - Rage Against the Machine (se é que isso é possível). Eu não conhecia a banda, mas entre os 89 mil presentes tinham vários fãs da Muse. Às 21:40 os 4 irlandeses aparecem sem muito glamour, com as luzes acesas e se posicionam nos seus lugares para um show de 2h15. Mais uma vez eu me esqueci de levar algodão pros meus ouvidos. Quando tinha banda eu ficava com os ouvidos zumbindo após ensaios e fico assim após shows também. Se botar algodão no ouvido não fica zumbido e dá uma filtrada no som. O meu ouvido esquerdo já não é o bicho porque eu ensaiava de lado pra bateria. (lembrando que sempre que ficamos com ouvido zumbindo é sinal de que ouve prejuízo irrecuperável à audição). Por falar em som, o único ponto que eu melhoraria no show era a qualidade do som. Os auto-falantes principais ficam pendurados na volta da estrutura, tinha volume, mas o som poderia ser melhor. Falta algo para funcionar como concha acústica. Por falar em som, sempre que vou ao Morumbi penso - como fica o hospital (Albert Einstein, ao lado do Morumbi) num dia de show? Eu penso em alguém que esteja se recuperando, com dor, tomando algum remédio pra tentar dormir. Não levei máquina fotográfica porque sabia que não conseguiria fazer fotos muito boas e com certeza esse show é o que mais tem fotos/vídeos na internet, se botar “U2 360” no Utube ou Google Images vem uma infinidade de coisas. Além disso, o Bono disse que esse show seria filmado e recomendou que o pessoal baixasse pra guardar de lembrança. Nos anos 80 a gente alugava VHS em locadora e ia pra casa de alguém, juntava dois vídeo-cassetes e pirateava as fitas pra ver 150 vezes a mesma coisa. Geralmente vídeos de shows e surf (com som horrível e imagem cheia de chuvisco). Eu lembro de adorar ver incontáveis vezes aquele vídeo Rattle & Hum (1988) e minha música favorita era "Where the streets have no name", com aquela iluminação vermelha e o Delay interminável da guitarra do Edge entrando devagarinho. E ali estava eu, 20 e poucos anos mais tarde, assistindo aquela cena ao vivo, com a mesma iluminação vermelha, todo arrepiado e me perguntando - como é que esses caras conseguem fazer isso por tanto tempo? É tipo: “Sir Paul McCartney, como o senhor ainda consegue ter vontade pra sentar ao piano e cantar Let it be?” Músicas dispensáveis do show: a participação do Seu Jorge cantando em inglês uma música do Kraftwerk em ritmo de bossanova foi totalmente fora de contexto, também não me agradaram "Even Better Than The Real Thing" (numa versão quase irreconhecível), "Miss Sarajevo" e "Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me". Momentos legais que marcaram o show: o Bono pega uma guria da plateia, senta com ela e mostra um texto, ela começa a ler e percebi que era a primeira estrofe de “Beautiful Day”, mas em português. Antigamente o Bono fazia um discurso sobre “crianças africanas - AIDS - fome - anistia” antes da música “One”, agora o discurso dele foi abolido e antes da “One” eles projetam nos Leds uma fala bem breve e interessante do Prêmio Nobel Desmond Tutu, aí quando entrou o primeiro acorde o mineiro que tava do meu lado com a namorada falou - “nóóó, tô repiado” (em Minas Gerais eles falam nóóó ao invés de nossa).

Durante a música “City of blinding lights” canhões de luz são apontados pára o céu e o facho vai muito alto. A impressão é que a luz não tem fim (mais alto que o chamado pro Batman), mas em termos de iluminação o mais legal foi na “With or without you” quando o palco fica escuro (azul) e surge uma mirrorbal (aquelas bolas de vidro das discotecas) no alto da “aranha”. A bola gira e todo estádio fica na penumbra, apenas com aquela luz giratória e uma quantidade absurda de luzes na plateia dos celulares e câmeras. Além dessas citadas, outras músicas que completaram a noite e que não podem faltar em shows do U2: I will follow, I still haven't found what I'm looking for, Pride (In the name of Love), Sunday Bloody Sunday, Walk On e All I want is you (só o início pra dar a deixa para a Where the streets....).
O telão circular de LED assume 3 posições: no alto fechado, embaixo fechado ou aberto engolindo a banda (não deu pra entender né), depois eu li que são 1300 metros quadrados de tela, resolução de 500 mil pixels. O palco de 46 metros de altura é tão grande e complexo que eles têm 3 cópias de algumas partes para acelerar a montagem de uma cidade pra outra. Se não fosse assim demoraria mais de uma semana para ir de um local pro outro. A banda segue a mesma coisa, até porque musicalmente o U2 não é uma banda de alta técnica musical, suas músicas são extremamente simples, muito mais embasadas em melodia do que em técnica. A voz do The Edge nos backing vocals segue na medida exata e a voz do Bono ficou prejudicada em alguns momentos (minha opinião) por causa da qualidade dos auto-falantes. Não que fosse ruim o som, mas digamos que o visual é imensamente superior à qualidade do som que o palco gera. Cheguei a pensar se não poderia ter sido algum prejuízo devido às chuvas dos dias anteriores. Mas não quero dizer que o som era ruim, é que eu esperava a perfeição sonora similar ao show visual. Não vou comparar porque são artes diferentes, nunca vi o Cirque Du Soleil ao vivo, mas penso que esse palco do U2 gera um tipo de espetáculo como o Cirque no sentido de que é algo que a gente pode até ver pela TV, mas não tem como explicar, tem que ver ao vivo. O tamanho das coisas e a intensidade da iluminação somada ao impacto das músicas que a gente ouve há mais de 20 anos cria um ambiente muito marcante. Não é à toa que a imprensa mundial chama essa turnê de “O maior espetáculo da terra”. Além de todas as fotos que usei no post, e independente de gostar ou não da banda, este vídeo mostra um pouco da grandiosidade que é esse show:

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Os Iosbor


Demorei para colocar algo sobre esse show aqui, mas foi falta de tempo mesmo.
A primeira vez que ouvi falar do Ozzy foi no Rock in Rio 1. No ano do Rock in Rio 1 eu tinha quase 11 anos e lembro de ouvir a propaganda dos shows internacionais: Iron Maiden, Nina Hagen, James Talylor, Queen, Ozzy Osbourne... e na minha cabeça eu entendia que era uma banda chamada “Os Iosbor”. Depois fiquei sabendo que ele era “o cara que comeu morcego no palco”. Mas só comecei a ouvir Ozzy em 1991, por influência de amigos que eram fãs do Black Sabbath (banda da qual nunca fui fã). Meu primeiro contato com ele foi no disco No More Tears (que teve um baita impacto na MTV na época) e depois disso descobri algumas coisas mais antigas (discos Blizzard of Ozz e o Bark at the Moon) e acompanhei o lançamento de coisas novas dele que considero muito boas, principalmente o disco duplo ao vivo Live & Loud.
Quando comprei os ingressos pro show do Ozzy com bastante antecedência, a preocupação era – será que ele ainda vai estar vivo no dia do show e vai se lembrar de ir até o local? Recentemente vi uma entrevista com ele e o que ele mais repetia era – “não me lembro”, seguido de uma risada estranha.
No dia do show mesmo, a preocupação era outra. Noite de show no Gigantinho e jogo da Copa Libertadores (eu acho) no estádio ao lado (Beira-rio, né?). Previsão de caos total no trânsito em Porto Alegre. Mas nenhum dos medos se concretizou, ida e volta do show super tranquilas e o Ozzy se lembrou de ir ao show.
Vários conhecidos estariam lá, mas não encontrei ninguém esperado e pra minha surpresa, assim que entrei no local dei de cara com meu tio (irmão da minha mãe) que brinca de músico também e foi um dos que me ensinou o pouco que sei de guitarra, isso lá nos idos de 80 e poucos.
Não vi o show de abertura da banda gaúcha Gunport, meu tio gostou. Esperei apenas 20 minutos e o show do Ozzy iniciou com “Bark at the moon”, na verdade começou um pouquinho adiantado, raridade no mundo do rock. Detalhe pra decoração do ginásio – morceguinhos roxos da Oi pendurados de cabeça pra baixo no teto.
O meu show ideal do Ozzy teria por volta de 25 músicas e um pouco mais de 2h de duração, mas me contentei com as 15 músicas apresentadas, até porque o veinho não aguentaria mais de 2h de show com qualidade. De qualquer forma ele tocou várias do meu disco favorito (No more tears) e em nenhum momento do show ele demonstrou estar gagá, como algumas pessoas temiam. Ele simplesmente é louco, mas isso é a base da fama dele. E o cara usa uma mangueira com espuma pra molhar o público e ele mesmo, depois enfia a cara num balde com água e encara o pessoal com uma cara de alucinado feliz. E o meu tio dizia – esse louco tá encharcando tudo, daqui a pouco toma um choque. O andar do Ozzy é similar ao de algum personagem de filme de terror e a agitação durante todo o show se resume a uma movimentação de braços como se estivesse fazendo polichinelos sem sair do chão, gritando “go fucking crazy”, mas a postura do cara mostra claramente que o corpo tá bastante sofrido pelos 62 anos de “uso indevido”. Apesar disso, a voz (que falha de vez em quando) continua com aquele som inconfundível. Eu nunca vi nem ouvi falar de um cover do Ozzy.
Uma hora de show e ele sai de cena pra descansar. A banda (gurizada boa) toca uma instrumental do Black Sabbath (ao total foram 5 músicas do tempo de Black Sabbath durante o show). Impressionante o peso da bateria da banda, e claro que pra estar ao lado do Ozzy, o guitarrista tem que ser um cavalo, já que até hoje ele só tocou com guitarristas fenomenais (apesar de todo lado histórico, eu prefiro o Zakk Wilde do que o Randy Rhoads). A banda é simples: baixo, guitarra solo, bateria e um tecladista que em algumas músicas fazia guitarra base.
Gauchada, dentro do ginásio de um time e em dia de jogo.... atiraram 3 bandeiras pro Ozzy durante o show (RS, Grêmio e Internacional), em 2 ele se enrolou, desprezando apenas a bandeira colorada. Óbvio que ele ignorava o significado de todas as 3.
Mas em suma o show de 1h40 estava bom e enquanto o Ozzy tava no palco ele deu ao público o que a gente queria. Para o meu gosto de Ozzy, as melhores músicas do show foram: Bark at the Moon, Mr. Crowley, Road to Nowhere (que eu filmei toda), War Pigs, Shot in the Dark, I Don´t Want to Change the World, Crazy Train – e no bis: Mama, I´m Coming Home e Paranoid pra encerrar. Apenas uma música nova (Let me hear you scream), no setlist, e não pude evitar o pensamento – ele deve cantar as mais antigas por 2 motivos: é o que o pessoal quer ouvir e com a confusão mental que deve ser a cabeça do Ozzy, ele não deve memorizar coisas novas.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Half Punta - 2011


Depois de umas 3 tentativas em fazer o Meio Ironman de Punta del Este finalmente consegui ir. Em anos anteriores cheguei a me inscrever e reservar hotel, mas tive problemas de saúde, falta de tempo ou de dinheiro. A viagem foi tranquila e tive a companhia de outros 2 triatletas, o Michel e a Aline que dividiram despesas, risadas, comida e muitas fotos. Eles, apesar de triatletas, não foram competir por razões diferentes, ele com uma lesão crônica no joelho não consegue correr mais de 10km e ela porque está engatinhando no triathlon e ainda é cedo para um meio ironman.
Paradinha no Chuy pra pequenas compras e almoço e o Michel comprou o que iria lhe acompanhar por toda viagem e rolava de um lado pro outro dentro do carro - um travesseiro de M&M’s. Já de saída uma coisa inusitada e um aviso a quem não sabe. Para entrar no Uruguai a policia exige identidade, mas eles não aceitam a nossa carteira de motorista. Eu tinha identidade normal, carteira de motorista e a carta verde para andar com o carro no Uruguai. O Michel só tinha carteira de motorista (sifu) e a Aline tinha a de motorista e uma identidade de quando ela tinha uns 12 anos (sifu também). A foto dela é tão antiga que eu nem conhecia ela na época. Eu poderia entrar no país, mas eles não. Teriam que ir a Santa Vitória fazer uma documentação. Nisso, um motorista de ônibus que estava perto disse rindo - “ele tá se fazendo, quer dinheiro, bota 30 pila no bolso e vai conversar com ele, mas não leva mais porque ele vai querer tudo que tiveres no bolso”. Ao mesmo tempo o ônibus dos triatletas de PoA estava na aduana e o Alex Azambuja estava com a papelada de todos. Nenhuma encrenca pra eles. Até que o policial chama o Michel pra trás do balcão e diz que dessa vez vai nos dar uma força (mui amigo), mas pede que a gente deixe uma gorjetinha pra cerveja. Suborno declarado na fronteira e 90 reais depois nós entramos regularmente no país vizinho. Aí eu fiquei pensando, quantos brasileiros tentam entrar no Uruguai diariamente e só levam a carteira de motorista? Os policiais devem viver bêbados de tanta cerveja. Dia perfeito pra viajar. A Aline dirigiu o tempo todo e eu trabalhei no computador no banco de trás. Chegando a Punta fomos a 3 lojas de material esportivo e o Michel comprou um wetsuit, mas com certo suspense porque ele não sabia a senha do cartão. As funcionárias da loja não entendiam muito bem quando eu falei que esse era o problema desses cartões achados na rua, a gente vai tentando senhas até bloquearem. Mas para sorte dele, em crédito internacional só pedem assinatura e não pedem senha. As atendentes só acharam estanho quando ele passou o cartão deu tudo certo e nós comemoramos. No shopping tiramos uma foto com um boneco do Justin Bieber em tamanho natural. As guriazinhas na volta não devem ter entendido. Ficamos num hotel perto dos 2 lados das praias (Brava e Mansa). Jantamos numa pizzaria onde tenho certeza que as pizzas são feitas com maçarico porque o pão é mole, nem um pouco queimado, e somente o queijo está derretido por cima. Programa perfeito antes de dormir para desestressar - assistir South Park e Bob Esponja em espanhol. No dia seguinte tinha congresso técnico, retirada do kit e almoço dos atletas. No almoço dividimos mesa com o Diego Ciani, triatleta argentino de 52 anos que viu o Oscar Galindez gurizinho iniciando. Na verdade ele hoje pertence a um programa solidário do Galindez que dá auxílio técnico e material para triatletas. Gente fina, só tem aquela mania de argentino de ficar beijando a gente, mas tudo bem. O tio de 52 anos chegou antes de mim. Adoro ver gente mais velha do que eu me ganhando. Me passa uma sensação de que ainda tenho muito pela frente. No almoço finalmente encontramos com o Pablo de Pelotas. Toda função do evento foi no Cassino Conrad que tem aquele ar de filme, com limusine na porta muito mármore, muito luxo e muita gente velha de muleta, andador e aparelho de surdez gastando tudo que conseguiu juntar durante a vida (antes que algum parente gaste). Curiosidade do almoço servido no Conrad para os atletas - sobremesas lindas, muita massa, saladas, mas apenas um tipo de carne: camarão. Em 2 tipos de preparo, mas não tinha escapatória, a única carne no almoço era camarão gigante. Adorei, mas pensei em quem tem alergia ou não gosta. Fui solidário com essas pessoas, e em homenagem a eles fiz um minuto de silêncio e logo em seguida comi camarão até me dar dor de cabeça. O Michel e a Aline foram usar a casa de Câmbio do Cassino e de troco deram pra eles tickets pra jogar - eles perderam 2 dólares apenas em 40 segundos de pura diversão e adrenalina. Além desses afazeres do evento, demos uma de turista - passeios de carro e a pé (meus companheiros de viagem pareciam não entender que na véspera de um ½ Ironman a gente não tem muita vontade de caminhar, mas a gente vai na parceria). Também conhecemos a estrada em que seria o pedal (asfalto maravilhoso, mas um sobe e desce desgraçado). Nesse dia o mar estava perfeito para natação e encontramos um pessoal de PoA dando uma soltada na água. No trajeto do ciclismo, na véspera da prova, já tinha uma barraca de vender material esportivo. À tardinha eu peguei minha cruz (notebook) pra trabalhar um pouco enquanto o Michel foi dar uma corrida e a Aline saiu pra caminhar e fazer fotos artísticas no porto de Punta (pôr do sol, leões marinhos, etc.). Preparação da bike pro dia seguinte, última revisada em tudo, 30 minutos de piscina térmica pra aquecer antes de dar uma alongada e fomos jantar. O Michel é um connoisseur de junk food e deixamos ele nos guiar pelo mundo da gordura saturada. Comi uma coisa que não comia desde o lançamento do Windows 3.11 - batata frita. Fomos num lugar comer Chivitos (um bauru pequeno demais para o recheio todo e que vem com batata frita). Não morri como previsto por Nostradamus. Manhã da prova, rotina de sempre, engolir comida sem sentir direito o gosto, quarto escuro pra não acordar os outros (nessas horas é incrível como sacos plásticos fazem barulho, tem que ter uma explicação acústica pra isso). Ir ao troninho 2-3 vezes e checar as coisas pela enésima vez. Mesmo no hotel já dava pra ouvir que o vento tava forte. Chegando ao local da prova vem a notícia do Pablo: “vai ser duathlon. É sério”. O Sandro de PoA quando me viu já veio rindo - “adorasses a surpresa né?” A manhã estava muito ventosa e fria. Não tinham liberado a natação por causa do vento e da corrente que entrou com a frente fria. Eu olhando de fora achei que dava tranquilo, mas... los hermanos são mais ariscos pra água. E nessa hora pensei - se tá muito vento pra nadar, deve estar uma delícia pra pedalar. Não tinha como aquecer, pouco tempo e muito frio, estratégia mental de prova alterada em meio minuto de reflexão. Antes eu pretendia largar a 110% na água, pedalar forte e correr com o que sobrasse, mas é bem diferente iniciar a bike já tendo corrido, ainda mais num terreno estranho pra mim, com muita subida (um total de 10 escaladas no ciclismo).
Queria ter mudado o figurino também, mas não deu. A prova seria de 5,4km de corrida, 86km de bike e 21 km de corrida. Larguei com o Pablo e concordamos que iríamos fazer um trote entre amigos só pra aquecer porque sabíamos o que vinha depois. O ritmo tava tão calmo que conversamos o tempo todo, saímos juntos da transição com as bikes. O ciclismo foi algo à parte, existiam locais em que o vento dificultava e locais em que a subida dificultava, entre uma coisa e outra eu curtia a paisagem que é o que tem de melhor nessa prova. Pra quem conhece Punta, o ciclismo é nos morros de Punta Ballena, passando pela entrada do ponto turístico Casa Pueblo, tudo feito numa estrada à beira-mar. Depois de largar a bicicleta a gente tem que correr né, e as pernas já vinham bem meia boca, mas faltavam só 21km. Em resumo, fiquei curtindo aquela paisagem e me bronzeando por 5 horas. Recomendo a prova a todos que possam ir, gostei muito do evento mesmo e irei todo ano se for possível. Local lindo, comida uruguaia, asfalto perfeito, marcação de tempo por chip, abastecimento de alimentos e hidratação muito bem feito. Colocação? Não faço ideia porque o site ainda não tem os resultados, mas a minha categoria era a maior e tinha uns 35 inscritos, eu devo ter chegado entre o 4º e 34º na categoria com certeza. Os organizadores tiveram um problema jurídico no dia da prova e não sei se isso está atrapalhando alguma coisa porque até prisão deu, o Deco colocou os detalhes no blog . Pelo menos pra mim nenhum problema jurídico teve impacto. Uma coisa que me atrapalhou mesmo foi um pedaço de sola descolado dos tênis que vinha batendo palmas do km10 em diante. Logo após a chegada, tomar banho, comer pra pegar a estrada em seguida. Mas a pessoa aqui meio abalada com a mistura de adrenalina e cansaço não tava coordenando nem comer direito e dei uma mordida na minha língua como nunca visto antes da na raça humana, a foto da língua é de 48h após o acidente. E o garçom do café em que fomos cismou comigo que os meus pratos dariam para 4 pessoas e eu insisti - é só pra mim mesmo, pode trazer meu querido, fica tranquilo. Minha irmã que adora cortar e costurar disse que daria pra dar um ponto na língua, mas eu achei meio radical demais e deixei criar um coágulo mesmo. Só dói pra comer. Iniciei a viagem de volta dirigindo os primeiros 220 km e entreguei a direção pra Aline no Chuy (depois dela ter sesteado no banco traseiro enquanto eu e o Michel discutíamos fatos relevantes sobre o Heavy Metal americano e britânico nos últimos 30 anos). Na aduana brasileira fomos parados e como a bike estava impedindo de abrir o porta-malas, a fiscal primeiro perguntou: compraram alguma coisa? Eu respondi: bolacha, muitas Cerealitas e Toblerone. Falamos que vínhamos da competição. Ela entrou no carro e ficou fuçando nas nossas coisas. Bem simpática a moça, pequerrucha e aparentando ter uns 25 anos. Simpática até ela pegar a roupa de neoprene do Michel e puxar a nota fiscal. Todos gelamos. Ela guarda a nota e diz: podem seguir. Dentro do carro fomos ver o valor da roupa dele e ficamos pensando “será que passou dos 300 dólares e ela foi parceira?” aí o Michel pega a nota e começa a rir - a roupa custou 299 dólares. Ano que vem se volta lá, espero que dessa vez pra fazer um triathlon mesmo, de preferência com menos vento.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Treinando para um Ironman



Como alguns não sabem inglês, resolvi colocar uma tradução aqui embaixo.


Estou treinando para um Ironman.


Mulher: quer sair pra jantar? São 6 horas.
Homem: não posso, tenho que ir pra casa dormir.
Mulher: são 6 da tarde, tu tens 38 anos, por que tens que ir pra casa dormir?
Homem: estou treinando para um Ironman.
Mulher: que diabos é um Ironman?
Homem: um Ironman é uma prova de 3,8km de natação, seguido de 180km de bicicleta e uma maratona de 42km, tudo dentro de 17 horas.
Mulher: qual o teu problema?
Homem: nenhum, isso é diversão pra mim. Eu tenho que ir dormir agora pra poder acordar às 4 da manhã e treinar.
Mulher: tu acordas às 4 da manhã?
Homem: 6 dias na semana, nas segundas eu durmo até às 6 da manhã.
Mulher: tu é retardado. Então tu vai dormir às 19h toda noite?
Homem: mais ou menos isso.
Mulher: quanto tempo tu precisas treinar para esse tal Ironman?
Homem: mais ou menos uns 6 meses.
Mulher: tu já te deu conta que não vais transar com ninguém por uns 6 meses?
Homem: não dá nada, pois eu vou ser um Ironman.
Mulher: tá, mas pelo menos tu ganha alguma grana por completar esse Ironman?
Homem: não, apenas o vencedor ganha dinheiro, eu na verdade pago 700 dólares pra me inscrever e depois tenho que comprar passagens aéreas e voar pra lá, gastar dinheiro pra despachar minha bike e pra ficar em um hotel. Mas tudo vale à pena, eu vou ser um Ironman.
Mulher: então tu gasta uma baita grana pra não sair de noite, não transar com ninguém por 6 meses, tudo pra dormir 19h e se intitular uma coisa que ninguém jamais vai ser estúpido o suficiente pra fazer?
Homem: mas eu vou ser um Ironman.
Mulher: tu é um idiota.
Homem: eu tenho que ir pra casa dormir agora. Se tu quiser sair comigo pra uma pedalada às 4:30 da manhã ia ser legal.
Mulher: não tem nada de legal às 4:30 da manhã, tu realmente é louco.
Homem: talvez tu queiras dar uma corrida comigo na terça e depois tomar um shake de proteína.
Mulher: isso a gente poderia fazer. A que horas vais correr na terça?
Homem: às 4:45 da manhã
Mulher: vai te f@$%#, eu vou jantar agora

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Aquathlon do Cassino

MUDANÇA DE LOCAL E DATA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
13/03 É A NOVA DATA DA PROVA.
Área de Esportes Náuticos É O NOVO LOCAL

Isso é um post convite para o 1º Aquathlon do Cassino.
Esse tipo de prova (natação + corrida) vem sendo realizado na praia do Cassino desde 2000, sempre sob responsabilidade dos Salva-Vidas, levando o nome de “Duathlon dos Salva-Vidas do Litoral Sul”. Mas este ano, por diversos motivos administrativos, a corporação não iria realizar a prova.
Com isso começou a movimentação entre alguns atletas para tentar realizar a prova de qualquer maneira, mesmo que em menor proporção, por não contarmos com a forte presença dos Salva-Vidas de outras regiões que costumam vir prestigiar a prova de seus colegas.
Uma das críticas que eu sempre tive em relação à prova dos Salva-Vidas era quanto ao formato da mesma: a largada era na ponta dos Molhes da Barra (ninguém assistia), nadávamos aproximadamente 3km até a praia, transição para corrida, e corríamos 6km em direção à estátua de Iemanjá. Era preciso literalmente correr atrás dos atletas para assistir à prova. Nos Molhes se via a saída da água e transição, mas não se via o final da prova. Quem estava na Iemanjá via somente o final da prova. Quem estava na praia não sabia o que estava acontecendo e quem eram aqueles malucos que passavam correndo de sunga. Os atletas que não têm carro precisavam de carona para ir aos Molhes (se fossem de bicicleta, quem traria de volta a bicicleta?), os que têm carro precisavam de alguém que trouxesse seu carro de volta. A entrada pelas pedras muitas vezes deixava o pessoal com cortes nas mãos e pés, além disso, os primeiros atletas que chegavam à ponta dos Molhes ficavam ao sol esperando os demais, ou dentro da água (que nem sempre está em temperatura agradável para ficar parado). Mas de um jeito ou de outro, a prova sempre saía e por 10 edições os Salva-Vidas fizeram um excelente trabalho organizando o evento. Só esse ano que realmente não foi possível por questões administrativas.
Nessa edição de 2011 o formato da prova será diferente (semelhante ao que foi no primeiro ano, 2000), buscando facilitar tanto a vida dos atletas quanto da organização e plateia porque tudo se concentrará em um único local. O trajeto permitirá a todos acompanharem as colocações dos atletas várias vezes durante a prova (os atletas passarão pelo local de concentração da prova 4 vezes). As distâncias foram alteradas para 1100m de natação e 6 km de corrida. A natação será feita em 2 voltas (com uma passagem pela terra, permitindo ver as colocações no meio dessa etapa) e a corrida será feita em 3 voltas. A imagem abaixo mostra o rascunho que fiz quando tracei a ideia da prova.



Local: Praia do Cassino - Área de Esportes Náuticos (à esquerda da Iemanjá, entre o Terminal e os Molhes da Barra)
Data: 13 de março (domingo)
Distâncias: 1100m de natação (2 voltas de 550m) + 6 km de corrida (3 voltas de 2km)
Inscrições: enviar nome completo, equipe/patrocinador e data de nascimento para o e-mail coriolis@vetorial.net até o dia 11 de março (sexta-feira)
Preço: R$ 10,00 (a pagar no dia da prova).

Horários:
- Concentração, pintura e instruções: 8:30 - 9:30
- Aquecimento no trajeto da prova: liberado até 9:45
- Largada de todas as categorias: 10h
- Premiação: meio-dia

A competição é organizada pelas equipes esportivas R.A.O. e Rio Grande Multisports - RGM.
O patrocinador do evento é a Loja Container Cassino (Container Ecology Store CASSINO localizada na Av. Rio Grande, 523), na pessoa do Cesar Oliveira Júnior, que sempre que é requisitado, não nega apoio ao esporte.
Apoio: Secretaria Municipal de Saúde, Bombeiros e Salva-Vidas da Praia do Cassino (segurança) JNIL Cereais e Supermercados Guanabara (alimentação/hidratação) e Associação de Corredores de Rua de Rio Grande - ACORRG (infra-estrutura).

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Técnico vencedor Vs. Técnico perdedor.

Existe relação entre o sucesso esportivo e a qualidade profissional de um técnico/treinador?
A resposta óbvia é sim, existe. Mas como é possível avaliar competência de um técnico pelo sucesso de seu(s) atleta(s)? Isso é diferente em esportes individuais ou coletivos?

Em alguns esportes como o futebol isso é feito a toda hora de maneira equivocada (minha opinião) pela mídia e pelos torcedores. Existe apenas um resultado desejado pelo torcedor e 100 vitórias consecutivas não costumam ser suficientes para estabelecer um técnico em nenhum time. Basta uma derrota para que a mídia e os torcedores "exijam" a troca do técnico. Mais engraçado disso tudo é que hoje em dia a equipe responsável pelo sucesso de um time envolve pelo menos: fisioterapeuta, nutricionista, psicóloga, médicos, preparador físico, técnico, fisiologista, massagista, etc. e ninguém cogita colocar a “culpa” em algum desses membros. Erros nutricionais podem afundar uma equipe, desequilíbrio emocional ou treinamentos físicos mal distribuídos também, mas jamais veremos uma faixa no estádio pedindo que troquem a nutricionista ou a psicóloga do clube. O técnico sempre é o culpado exclusivo, costuma ser crucificado, sai do time e 2-3 anos depois ele retorna....até uma próxima derrota.

E num esporte individual?
Claro que por trás de um atleta bem sucedido existe um bom técnico e se seguirmos a lógica empregada pelo povo - um mau resultado pode significar um mau técnico. Será?
Com certeza os técnicos dos primeiros colocados são profissionais do mais alto nível, mas o que dizer dos treinadores dos atletas de menos sucesso? Esperamos que na medida em que as colocações vão ficando piores, o nível de tudo vá caindo também (inclusive dos técnicos responsáveis pelos atletas). Ou seja, os melhores técnicos treinam os melhores atletas e o oposto é verificado no outro extremo.
Não dá para comparar diretamente porque esporte profissional é uma coisa e provas que envolvem atletas amadores são totalmente diferentes, mas vejamos uma situação curiosa que ocorreu no Ironman do Hawaii de 2008.

Nesse ano no Ironman do Hawaii o primeiro colocado foi esse gurizão da foto, o australiano Craig Alexander (na época com 35 anos), com o tempo de 8h 17'. O treinador do Craig foi Nick White.
Alguma dúvida sobre a competência desse treinador?
Nenhuma. O cara levou seu atleta ao ponto máximo.

Agora vamos para o outro extremo da prova, o último colocado.
A última pessoa a cruzar a linha de chegada foi Joe Marinucci (1637º lugar), com a mesma idade do Craig, mas com o tempo de 16h 58' (mais do que o dobro do Craig).
Só o tempo da maratona do Joe (8h 6') foi quase suficiente para o Craig fazer o Ironman inteiro.
O treinador do Joe foi........Nick White. Sim, o mesmo Nick, a mesma pessoa.
Alguma dúvida sobre a competência do treinador do último colocado?

O ápice do sucesso foi a vitória com o Craig e com certeza no currículo do Nick White deve constar essa façanha (suficiente pra garantir emprego por um bom tempo). Alguém gostaria de colocar no currículo - “técnico do último colocado”?
Mas é muito engraçado isso, trata-se da mesma pessoa. A mesma competência extrema que levou à vitória deve ter sido aplicada também no treinamento do último colocado. E se não fosse o treinador, talvez o Joe nem tivesse concluído a prova. Ter chegado em último foi um sucesso ou um fracasso?
Se o Nick White tivesse treinado o Joe e mais uma meia dúzia, mas não tivesse treinado o vencedor, ele continuaria sendo o mesmo profissional competente. Mas não poderia colocar no seu currículo esse selo de qualidade.
Você gostaria de ser treinado pelo mesmo técnico do último colocado?
Gostaria de ser treinado pelo mesmo técnico do Craig Alexander?

Eu acho que o profissional deve sempre exaltar seus sucessos e tem mais que usar seus clientes/atletas como uma propaganda. O lado negativo disso tudo é que muitas vezes o pessoal dá mais atenção para o que “dá mais ibope” sem considerar o empenho e a competência do profissional envolvido.

Na área da educação física é muito comum a promoção pessoal nas costas dos outros. Eu cansei de ver slogans como - “personal trainer da fulana” sendo que a fulana geralmente é uma mulher com corpo perfeito, na casa dos 20-30 anos, que tem 6 horas por dia pra dedicar ao exercício e que já nasceu linda. O que pode ser mais fácil do que ser treinador de uma pessoa assim? Quem quer ser personal trainer de uma senhora obesa, diabética e hipertensa, com 76 anos, que nunca se exercitou e não gosta de se exercitar?
Qual desses profissionais é mais competente? Qual tarefa é mais difícil?
Imaginem dois folhetos de propaganda:
1. Personal trainer da Sabrina Sato (uma foto do sujeito ao lado dela, bronzeada numa roupa de corpo inteiro de suplex branco, em uma sala de musculação).
OU
2. Personal trainer da dona Firmina (uma foto abraçado na vó, de vestido florido e óculos, mostrando a dentadura e segurando 2 pesinhos de meio quilo).
Qual desses profissionais você queria? O da Sabrina? (eu prefiro ela na verdade)
Qual deles é o mais competente? Não sei.
Qual dos dois precisa ser mais esforçado? O da dona Firmina, com certeza.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"Melissinha, vem com a pulseirinha"
Quando eu era pequeno tinha uma propaganda em que a sandália trazia de brinde uma pulseira, e a menina da propaganda falava: "é a minha Melissinha que vem com pulseirinha."

Existem pulseiras por uma causa, que revertem dinheiro para benefício de alguém, como a pulseira amarela da fundação Livestrong que auxilia a pesquisa no câncer. Outras pulseiras incluem para transplante renal (verde), câncer de mama (rosa), diabetes (azul), esclerose múltipla (laranja), epilepsia (meio azul, meio vermelha), furacão Katrina (azul piscina misturado com branco), câncer pancreático (púrpura), e AIDS (vermelha, feita apenas na África). Em geral, a cor da pulseira descreve sua causa, e as cores são frequentemente as mesmas das fitas de campanhas (como a fita vermelha da AIDS).

Ano passado um monte de homem grande, inclusive famosos do meio esportivo, começou a usar a pulseira do equilíbrio, a chamada "Power Balance". E o negócio virou febre, junto com todos os seus "testes infalíveis" de equilíbrio e flexibilidade. O ponto máximo do efeito placebo.

Mas a Power Balance não defendia causa nenhuma (a não ser a do cara muito esperto que inventou o negócio).

Pelo menos na Austrália o revendedor das pulseirinhas Power Balance admitiu ter se aproveitado da "ingenuidade" do consumidor menos informado e lançou esse documento abaixo dizendo algo como: ok pessoal, o negócio não funciona, a gente tava brincando com vocês, foi mal. Quem quiser o dinheiro de volta a gente vai devolver.

No documento eles admitem: "nós prometemos ganhos em força, equilíbrio e flexibilidade, mas admitimos que não existe nenhuma evidência de que isso seja real e portanto nos enquadramos em uma conduta ilegal. Se você se sentiu enganado pela nossa propaganda, pedimos desculpa e lhe oferecemos um reembolso monetário (desde que você tenha nota fiscal, canhoto do cartão ou outros comprovantes de compra de um revendedor autorizado)."

Coisa que no Brasil não deve acontecer, primeiro porque os direitos do consumidor são de certa forma negligenciados em relação a outros países e segundo porque brasileiro não tem hábito de guardar canhoto de compra, nota fiscal, etc. Isso pra não falar de quem comprou o bagulho em camelô.
Irônico mesmo é que o mesmo pessoal que admite isso segue vendendo e propagandeando o produto. Eles lançam um documento dizendo que não funciona, mas mantêm toda rede comercial funcionando normalmente em http://www.powerbalance.com.au
Mas agora no site não aparece nenhum benefício da pulseira. Eles podiam ao menos tirar o Andy Irons do site, ele aparece como usuário (o surfista morreu em novembro passado).

sábado, 1 de janeiro de 2011

Balanço esportivo: 2010
O ano de 2010 acabou e não foi nada do que eu pensava que seria. Na minha infância criei a expectativa de que em 2010 estaríamos “no futuro”, tipo Jetsons, mas isso não aconteceu. Apesar de termos internet (que ninguém previa), ainda dirigimos os mesmos carros, nada de naves. Tirando o WikiLeaks, o ano não teve nada de surpreendente.
A foto do post é de 11 anos atrás de propósito, fim de ano é hora de se olhar pra trás. É do primeiro Duatlo que se fez no Cassino, em frente à estátua de Iemanjá. Eu com 25 anos, numa era A.A. (Antes do Abib, Henrique Abib, atleta que se tornou invencível nessa prova desde 2005 – desde então ele é sempre o primeiro a sair da água e o primeiro a cruzar a linha de chegada). Eu de lá pra cá felizmente estou nadando menos para me tornar um triatleta melhor (troquei tempo dedicado à água pelo asfalto para me tornar um melhor ciclista e melhor corredor).
Sempre ao final do ano eu faço o controle numérico dos meus treinos pra ter ideia de quanto estou treinando e como evoluo (ou involuo) ao longo dos anos. Mesmo antes de ser epidemiologista eu já tinha mania de ficar fazendo esse tipo de contabilidade inútil. Mas dá pra ver uma boa associação entre o volume de treino em cada disciplina e meu rendimento. Comecei esse controle em 1999 e tive altos e baixos causados basicamente por 3 motivos: lesões, falta de tempo ou problemas como piscina fechada por alguns meses.
Em 2010 tive uma mudança positiva que foi ter finalmente iniciado Pilates. Há muito tempo queria ter iniciado, mas sempre achava alguma desculpa. Apesar de não ser muito mensurável o quanto meu condicionamento melhorou devido ao Pilates, me sinto melhor e mais eficiente em vários aspectos. Além disso, fiz uma avaliação postural com fisioterapeuta que me receitou palmilhas e me fez entender cadeias cinéticas que estavam desequilibradas no meu corpo. Não que elas estejam equilibradas perfeitamente agora, mas quanto mais conheço do meu corpo, mais reconheço minhas limitações e melhor convivo com elas. Com isso mudei alguns hábitos e incorporei alongamentos diários específicos e manobras na quiropraxia que me deixaram menos suscetível às lesões e aos espasmos musculares, que são minha cruz desde 2000.
Uma das coisas que mais mudou ao longo dos últimos 10 anos foi a proporção em cada disciplina, por exemplo, em 2000 o tempo que dediquei à natação foi 5 vezes maior que o tempo dedicado à corrida. Dez anos depois, a quantidade de tempo gasta nessas 2 disciplinas é praticamente a mesma, com o ciclismo ocupando o dobro do tempo, o que é bem mais coerente para um triatleta como eu, que começou na natação.
Mas encerrando o ano de 2010 então eu treinei um total de 245 horas nas 3 disciplinas. Além disso, acumulei 175 horas entre musculação e Pilates. Pode parecer muito, mas já cheguei a treinar quase 500 horas em um ano, porém isso foi numa era pré-mestrado, pré-doutorado, pré-trabalho de gente grande. Mesmo com as mudanças em treino, a composição corporal permanece praticamente inalterada desde 1994, mas agora com os 40 chegando perto a coisa pode mudar um pouco.
Com essas comparações é que se percebe a diferença de uma pessoa ativa (como eu) para um atleta de verdade. Enquanto eu faço 400-500 horas de atividade em um ano, um triatleta de elite chega a treinar 2 mil horas. Enquanto eu pago, eles são pagos para treinar, viajar e competir.
Acumulei em 2010 aproximadamente 150 km nadados, 4170 km pedalando e 750 km de corrida. Ou seja, ao longo de um ano, é o mesmo que dizer que todos os dias eu fiz um mini-triathlon em que nadei 410 metros, pedalei 11,5 km e corri uns 2 km. Infelizmente o que eu queria aumentar mesmo eram horas de sono, mas isso tá difícil. Quem sabe isso mude agora com a minha aposentadoria em 2040 mais ou menos.
Apesar do treinamento não ter sido dos maiores em volume, esse foi o meu ano mais competitivo desde 1995, pois participei de 30 provas entre natação, ciclismo, corrida e combinações dessas disciplinas. Dá uma média de uma largada a cada 12 dias. E felizmente das 30 que larguei, 28 eu completei, desisti apenas de 2 rústicas por causa dos espasmos musculares. Psicologicamente nunca estive tão treinado e até acho estranho acordar num domingo sem despertador e sem competição.
Pro ano que vem a intenção é competir a mesma quantidade e sem dor, mas também se tiver que ser com um pouco de dor e abandonar umas corridas de vez em quando, não dá nada. Sinceramente hoje eu largo com 2 grandes objetivos: completar e não me acidentar no ciclismo. Desde 2001 (quando tive um acidente meio sério) cruzar a linha de chegada sem nada quebrado nem sangue tá mais do que bom. O negócio é seguir assim e não parar com o triathlon, pelo menos até os 85 anos.
É, 85 é uma idade legal, 2059 então vai ser minha última temporada no triathlon, é um ano bom. Depois disso o ciclismo começa a ficar perigoso, fica difícil treinar ao mesmo tempo com Ipod e aparelho de surdez e a partir de 2060 o lance vai ser ficar nadando e correndo naquele ritmo dos velhinhos, como diz um amigo meu, no “passinho da porca prenha”. A não ser que eu faça como esse senhor aí embaixo, ai a coisa muda de figura e pode ser que eu me empolgue por uns anos a mais.